Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 5 de abril de 2018

O edifício inacabado da sede do Rádio Clube de Moçâmedes





O projecto de um sonho irrealizado... Foto Salvador



Em 15/08/1952 foi  lançada a 1ª pedra a sede do RCM, um edifício a construir exclusivamente para o efeito. Mas havia sonhos que falavam mais alto e devido à carência de meios e à ausência de ajudas oficiais nunca chegaram a ser concretizados. Não admira! Os Rádios Clubes, pela sua natureza associativa, com direções democraticamente eleitas, eram como bem referiu Leonel Cosme, o único espaço de relativa autonomia onde se manifestava a "opinião pública" das populações angolanas.
 
O Rádio Clube Moçâmedes foi sem dúvidas, um grande impulsionador do desenvolvimento da cidade, tendo a sua actividade, para além do campo cultural  e lúdico,se expandido ao desporto, através da promoção regular de relatos de futebol, de hóquei em patins e de basquetebol masculino e feminino. Foi sem dúvida um dos motores do desenvolvimento da cidade, naqueles 40 anos em que o território angolano superou todos os índices de crescimento.  Mas a construção da  futura sede do Rádio Clube de Moçâmedes, obra que teve como seu grande impulsionador o radialista e Chefe de produção, Carlos Moutinho, e um punhado de "carolas" que  graciosamente dirigiam aquela associação radiofónica, nunca chegou a ser concluida, e no ano da independência de Angola, devido à carência de verbas, reflexo da penúria dos meios e da ausência de ajuda do Estado à altura de projectos deste género, já se encontrava paralisada.


Ruínas que entristecem... Foto Salvador




Visita do Governador Nunes da Ponte à antiga sede do Rádio Clube de Moçâmedes, em 1956/7 ?  tendo à sua esq. e à sua dt, Albérico Sampaio e Mário Rocha, ambos elementos da Direcção do RCM na altura

Vem referida nesta foto a visita Governador do Distrito Salles Grade às novas instalações do RCM em 1956, acompanhado pelo "Capitão do Porto",  comandante Marrecas Ferreira,  Joyce Chalupa, Newton da Silva, Mário Rocha e Ferreira da Silva. Orlando Salvador e Sousa Jr. dão conta das modernas características dos novos gira-discos. As velhas instalações ficavam na Rua da Praia do Bonfim, ao fundo, próximo do velho campo de futebol, em frente da Avenida. As novas e inacabadas instalações ficavam para os ladois da "Sanzala dos Brancos".

Quem viveu em Angola naquele tempo sabe bem que este tipo de iniciativas dependia sempre da boa vontade das populações mais que de ajudas estatais, e que neste campo, o campo dedicado ao lazer das populações, tudo era conseguido a ferros. Foi o que aconteceu com o Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, outra obra inacabada que já foi por nós abordada, através de uma postagem.
Os proventos do Rádio Clube de Moçâmedes,  giravam à volta da publicidade, e tal como os clubes da cidade, também das quotizações mínimas dos seus associados, que não eram muitos, para além do produto de algumas festas que levavam a cabo pelo carnaval, fim de ano, Programas da Simpatia, subscrições, etc. Muita coisa se ia fazendo graças à carolice de uns quantos habitantes da cidade que dela se orgulhavam e se esforçavam por a melhorar.

Moçâmedes chegou à independência de Angola como uma cidade harmoniosa e com belas vivendas, em grande parte, graças aos esforços dos seus moradores.  Ao nível da habitação, não fosse Mariano Pereira Craveiro e outros "carolas" fundadores da sociedade cooperativa "O Lar do Namibe", Moçâmedes chegaria a 1975 reduzida ao velho casario do  seu centro histórico ou pouco mais, pois sequer havia créditos bancários destinados a habitação. O próprio Clube Nautico conseguiu completar o seu edifício, graças à ajuda dos industriais de Pesca, grande número dos quais a residir no bairro da Torre do Tombo, que contribuiram para tal com uma determinada percentagem que lhes era descontada por cada mala de peixe seco que entregavam no Grémio da pesca de Moçâmedes.

Na verdade já parecia uma praga, essa história das obras inacabadas: edifício do Rádio Clube de Moçâmedes cuja planta prometia uma obra de valor e de grande embelezamento para aquela zona da cidade. Cine-Estúdio Satélite, o cine inacabado de arquitectura futurista revestido de belos painéis alusivos às actividades do Distrito, à cidade, ao deserto e ao mar, construido na zona alta da cidade, que fazia lembrar uma nave espacial pousada na "Cidade do Deserto"... Complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, também na cidade alta. Ficou-se pelo campo de jogos, a aguardar por melhores dias para a sua conclusão...



Em meio a tanta carolice, alguns projectos surgiram em termos de  organização e gestão do RCM, mas que não passaram de sonhos. Eis uma desses projectos, que não passou disso mesmo: projecto!

MariaNJardim


Ainda sobre o RCM:



RÁDIO CLUBE NÁUTICO DE MOÇÂMEDES


Houve um tempo em que um grupo de amigos teve um sonho que ficou sempre no segredo dos deuses. Já não sei se a idéia terá sido minha, se do Mário , se do Andrade, que fazia parte do corpo directo do Rádio Clube, se do Alegria, locutor com o programa “O Calhambeque”, se a memória não me atraiçoa. Éramos todos amigos e colegas no Banco, o que por si só era meio caminho andado para transformar o sonho em realidade. Para lá do próprio projecto em si, o plano para a sua concretização era engenhoso, mas muito simples, e imbuído de boa fé e de um genuino idealismo que só existe enquanto a juventude não nos foge.

Mas, afinal, qual era o nosso sonho?

Se bem se lembram, a construção do edifício do Rádio Clube de Moçâmedes foi uma iniciativa, a todos os títulos louvável, do locutor Carlos Moutinho, professional competente que revolucionou a rádio da cidade. Simplesmente, por falta de apoios e vontade política, que era coisa que não existia naqueles tempos, o edifício acabou por ficar a meio, transformando-se num autêntico escarro no coração de uma zona que se estava a transformar num bairro bonito, graças à Cooperativa “O Lar do Namibe”.


Por outro lado, o Clube Náutico tinha sido projectado, de raíz, para levar um 1º andar, destinado aos seus serviços administrativos, coisa que viria a não se concretizar por falta também de verbas.
O nosso sonho era, pois, vender ao Lar do Namibe o inacabado prédio do Rádio Clube, com os seus terrenos adjacentes, e com os proventos daí resultantes construir o 1º andar do Casino, nome popular do Clube Náutico, e ali instalar o Rádio Clube. Ora, para se obter esse desiderato era necessário, obviamente, conseguir-se a fusão dos dois clubes. que passaria, então, a designar-se por “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes”. Mas essa fusão era o principal problema a ser ultrapassado, pois havia interesses instalados que tinham de ser removidos . A maioria das pessoas não se dava conta, mas a gestão do Rádio Clube girava à volta da publicidade, fonte substantiva das receitas, que era facultada de modo pouco transparente e pro bono a algumas, muito poucas, empresas da cidade; no Casino, o problema era de outro cariz e de muito mais fácil resolução: o clube tinha poucos associados, a maioria dos quais nem as quotas mensais pagava e estava entregue a uma vintena de sócios, apaixonados pela sala de jogos e pelo poquer. Os proventos resumiam-se às receitas originadas pela utilização do salão de festas por ocasião do carnaval, fim de ano e matinés dançantes aos fins de semana, suficientes para uma gestão equilibrada.

Havia, pois, necessidade de “tomarmos de assalto” de uma forma legal as duas direccões, o que se presumia fácil dado que, pela nossa experiência de sócios de ambos os clubes, sabíamos que nas assembleias gerais anuais as presenças resumiam-se sempre a meia dúzia de sócios. E no que toca ao Clube Náutico, era extremamente fácil vencer as eleições. O mais complicado, e que exigia uma maior cautela na manutenção do segredo, era o Rádio Clube, que possuia uma grande massa de sócios facilmente manipulada com as conhecidas procurações de última hora.

Era preciso, pois, que o nosso núcleo se expandisse em segredo absoluto apenas e tão só até a um número mínimo que nos garantisse a vitória na eleição do Rádio Clube. E sem nunca reveler o propósito final nem qualquer ligação com a Assembleia Geral do Clube Náutico, no qual detínhamos a maioria face ao irrisório número de sócios nele existente. Era um plano talvez maquiavélico, mas de uma pureza impoluta face ao idealismo que emanava da nossa juventude. E tínhamos a forte convicção de que iríamos não só engrandecer os dois clubes, como valorizar o edifício do Casino, em termos arquitectónicos, com reflexos directos para toda a envolvência da Praia das Miragens.
Mas naquela noite não houve nem lua cheia nem luar e o nosso sonho se esboroou quando, ao cair do pano, apareceram na assembleia geral do Rádio Clube as famigeradas procurações.

Sonhávamos um “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes” como verdadeiro ex-líbris da cidade do sol, sal e mar, fundada por uns sonhadores que ali chegaram na Tentativa Feliz e a erigiram a partir do absolutamente nada.

Mas, desgraçadamente, a história mostra-nos que em todos os lados e em todas as latitudes existe sempre um Miguel de Vasconcelos à mão de semear.
E nós tivemos o nosso. Por um prato de lentilhas

(ass) Arménio Jardim

quinta-feira, 15 de março de 2018

Casa de um colono. Lubango 1908.






Foto: Casa de um colono. Lubango. Uma família de colonos madeirenses e alguns elementos da etnia muhuíla.. Corrua o ano 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos...


Fotos dizem mais que palavras....

Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, "o sul de Angola foi a guerra”. "Por toda a parte havia conflitos, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. A guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados, e, sobretudo porque foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que os negros aguerridos não possuíam  a metralhadora."
 

Tentando uma leitura desta foto direi que, em meio a uma situação de conflitos que perpassavam à época o sul de Angola, e que se estenderam desde 1885 a 1915, esta, tal como outras famílias de madeirenses, que viviam isoladas e conviviam harmoniosamente com africanos muhuilas, marcaram bem a diferença de atitude perante a vida. Uma coisa eram as demandas do regime, outra coisa eram as pessoas. 

São estes aspectos da isso História dos povos que a História não devia ocultar, mas que oculta quando mete tudo e todos no mesmo saco. E é esse um dos grandes erros de quem escreve História.  A maldade existe, basta escutarmos os pacotes de notícias que jornais e TVs nos oferecem todos os dias. A maldade existe e não escolhe povos, nem fronteiras. As pessoas são boas ou  más por natureza e por educação, nada a ver com quantidade de melanina (pigmentação) presente na sua pele. A História não pode nem deve ser encarada a preto e branco. Só por ignorância ou má fé tal tem sido possível!

Entre os primeiros povoadores do sul de Angola estavam os madeirenses, simples emigrantes,  na maioria, à época, gente analfabeta ou muito pouco letrada,  gente humilde que desconhecia a História, e que para o sul de Angola partiu influenciada por campanhas de propaganda que os conseguiu persuadir. Iam em busca de uma vida melhor, e instalaram-se no planalto da Huíla, nos anos 1884 e 1885. Precisamente na altura em que na Europa decorria a Conferência de Berlim, a célebre Conferência que teve como principal resultado a "Partilha de África" entre as potências europeias industrializadas, e a definição das regras para a colonização, assunto a que eram alheios, ou que até mesmo desconheciam.O acordo final saído daquela Conferência impôs o “princípio da posse efectiva”, ou seja, uma potência só poderia reclamar o controle de uma determinada região se estivesse em condições de ocupar com gente da Metrópole, e de a desenvolver. Outros direitos, como os direitos históricos que Portugal reclamava sobre várias regiões de África, deixaram de ter validade. No caso particular de Angola, quando a Conferência de Berlim chegou ao fim, a 26 de Fevereiro de 1885, ainda havia grandes extensões do território angolano onde nenhum português tinha ainda posto os pés.  Desde logo começou a corrida para a ocupação de África. Esta levou ao envio maciço de tropas para as regiões a defender, e provocou o agravamento da escalada dos conflitos entre as concorrentes europeias, e principalmente com as tribos africanas. Na partilha, Portugal teve que se confrontar com as pretensões da Inglaterra e da Alemanha, as potências cobiçosas do território que por direito histórico reclamava, e teve que desenvolver acções de pacificação do gentio revoltado que estavam em marcha, e foram levadas a cabo sem grande consideração pelos pequenos núcleos de famílias de origem europeia, que recentemente ali se haviam estabelecido, e que pacificamente coexistiam com as populações negras de diferentes etnias, no sul de Angola.

No Distrito de Moçâmedes, mais propriamente no planalto da Huila,  em finais do século XIX, encontravam-se estabelecidos, e dedicados à agricultura, os boeres e os madeirenses. Em Moçâmedes, desde 1849 viviam dedicados à agricultura e à pesca, os luso-brasileros de Pernambuco, e uma comunidade de colonos algarvios que ali começaram a chegar a partir de 1861. Todos juntos, estes povoadores foram essenciais para que Portugal, através da ocupação efectiva e de meios pacíficos, os do trabalho, merecesse o respeito das nações competidoras.  Aliás, acabaram por ser o garante da ocupação daquela fatia de Angola. Sem eles, o mapa de Angola muito provavelmente teria sido diferente daquele que é hoje, dada a cobiça de potências estrangeiras. Talvez os alemães do Sudoeste africano (actual Namíbia) tivessem avançado pelo Distrito de Moçâmedes adentro, e tivesse  anexado o cobiçado território  a sul de Benguela. Respeitando as  regras então estabelecidas para a  ocupação, com a sua presença, teriam sido o travão para esse ambição.

 MariaNJardim



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Na foto: uma casa isolada no território da Huíla habitada por uma família madeirense, que ali podemos ver acompanhada por autóctones da região. 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos.

quinta-feira, 1 de março de 2018

AÍ ESTÃO ELES. OS TIGRES DA BAÍA DOS TIGRES...






"Transcreveremos aqui os apontamentos que a respeito d'essa tentativa nos ministrou o sr. P. Craveiro Lopes, um dos officiaes da expedição.

Saimos de madrugada e andámos por terra até ás duas horas e meia da tarde, caminhando uns para N. e outros para S., sem jámais encontrarmos agua, lenha ou gente. So vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes, e immensidade de aves, taes como pandas, pellicanos, patos e africanos; estas ultimas aos bandos de cem, e fazendo de longe como regimentos de soldados inglezes de fardas vermelhas e calças brancas; é muito bravia toda essa caça, e por isso custosa de apanhar.
Tanto nas vizinhanças do mar como para o sertão, recobrem o solo grandes dunas de areia, cuja superficie, açoutada do vento, está em constante movimento ondulatorio, exactamente analogo ao que tem as camadas conductoras das vibrações sonoras. Tão alentadas são algumas das dunas sertanejas que olhando do topo para a base, da banda de sotavento, isto ê, proximamente da banda do NE., para onde a inclinação é de uns 45° a 55°, turva-se a vista. Não são raras as que vingam a altura de um sexto andar de Lisboa, e deixando cair um corpo de bastante peso e superficie no cume de um d'esses outeiros, ouve-se como o estampido de uma arma de fuzil.

Por segunda vez descemos a terra ao romper da manhã de 23 de dezembro de 1854, e ao cabo de andarmos 4 ou 5 leguas encontrámos um preto, pescando na borda do mar e junto a umas pedras. Interrogado pelo nosso interprete soubemos que pertencia a uma tribu errante, para a qual estava pescando e que acampára nas proximidades. Procurámo-la e vimos que se compunha de 4 homens, 3 mulheres, 6 crianças e 19 cães, tudo accommodado em 2 barracas e um cercado feito de costellas e outros ossos de baleia; sustentavam-se de peixe, secco ao sol; bebiam agua tão pessima que, apesar de ardendo em sede, não podémos entrar com ella, e vestem-se apenas com trapos que lhes tapam as verilhas. Caso raro, rejeitaram a aguardente que se lhes offereceu, e sob pretexto de ser muito fria não aceitaram da nossa agua doce; comeram porém com avidez farinha de pau, e estimaram muito o tabaco. Por elles soubemos que ao cabo de 3 ou 4 dias de marcha para S. encontrariamos o rio Cunene».

Descripção e roteiro da costa occidental de Africa desde o cabo de Espartel até o das Agulhas
by Castilho, Alexandre Magno de, 1834-1871
Publication date 1866

https://archive.org/details/descripoeroteir00castgoog

PRAIA AMÉLIA: TANTAS HISTÓRIAS PARA CONTAR...

               Várias fotos da Praia Amélia no inicio do séc XX, no tempo da pesca à baleia feita por noruegueses



Hoje quem visita Moçâmedes e se desloca 5 km a sul na direcção da PRAIA AMÉLIA, já poucos vestígios do passado encontra, mesmo de um passado recente, com que possa ilustrar suas narrativas, porque tudo quanto era História vem sendo dali varrido com rodar do tempo. No entanto quem ali viveu decerto não se cansou de ouvir histórias contadas pelos antepassados sobre acontecimentos que tiveram lugar na PRAIA AMÉLIA, e que ficaram a marcar a História daquela praia.



Porquê PRAIA AMÉLIA? A ORIGEM DO NOME:

A PRAIA AMÉLIA era assim chamada porque em l842 ali encalhou a "escuna Amélia" da Marinha de Guerra Portuguesa no banco de pedra ali existente. A zona do banco era uma zona perigosa para a navegação marítima pois na baixa mar ficava a descoberto, e com a maré cheia era uma armadinha para os barcos de grande calado, que ousassem por ali passar. Os barcos mais pequenos, como as embarcações, traineiras, etc, podiam passar pelo canal existente entre a ponta da PRAIA AMÉLIA e o banco , mas os maiores tinham que passar ao largo do referido banco. Por alturas do ano de 1840, houve quem afirmasse ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passarem por entre o baixo e a praia da Amélia, ou seja pelo canal, que lhe fica fronteira, algo arriscado. Na escuna naufragada que deu o nome à PRAIA AMÉLIA viajava Joaquim Antonio Menez autor do livro "Demonstração geográfica e política do território portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."   publicado em 1848.



A CAPTURA DE BALEIAS E A GRANDE FÁBRICA DOS NORUEGUESES ...



Decerto os que ali viveram ouviram falar de uma fábrica de grandes proporções para a época, de capitais noruegueses, que ali se instalou, no início do século XX, com seus barcos de pesca dedicados à captura de baleias.

A caça à baleia XIV teria sido iniciada em princípios do século XV, no golfo da Gasconha, por pescadores idos da Bretanha e das Vascongadas, em perseguição dos gigantescos mamíferos, que acabaram por fugir para as costas de Portugal e da Espanha, e daí para os mares da América do Norte. Era então a França era nessa  a maior potência marinheira do mundo, mas por volta de 1870, a liderança passou a caber à Inglaterra, seguida da Noruega e da América, que ganharam prioridade na matança de baleias, que se faziam desde a Geórgia do Sul à África Equatorial. Em 1910 a matança de baleias tomou grandes proporções, até que em 1914 se procurou legislar o extermínio destes animais através de acordos internacionais, com regulamentos severos, protetores da espécie, que obrigavam os industriais ao aproveitamento dos despojos, mas todas estes esforços acabaram por perder o interesse com a deflagração da Guerra de 1914-1918. 

Foi por esta altura que, face às grandes necessidades de matéria gorda em todo o mundo, a Noruega resolveu organizar frotas para caça aos cetáceos no Artico, e é dessa época a instalação na Praia Amélia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes (Namibe), para onde a Knut Knut & Sons OAS, fez desviar uma flotilha, e fundou uma fábrica de óleos e guanos de grandes proporções para a época, dedicada à industrialização da carne e da gordura de óleos e guanos de cetáceos (baleias, cachalotes, golfinhos), que a sua frota abatia.  Enquanto a captura dos cetáceos se fazia em zonas marítimas limitadas, as instalações fabris eram construidas em terra, porém, com a necessidade de caçar mais longe, uma vez que os cetáceos afugentados da costa com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas, houve que adoptar navios-fábrica , onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares. Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuídos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.

Enquanto os noruegueses ali trabalhavam praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso. As instalações encerraram, mas os noruegueses que ali trabalhavam marcaram para sempre uma época em Moçâmedes. Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram memórias desses tempo romântico nas ossadas desses grandes animais espalhadas por todo o litoral, especialmente pela «Praia das Conchas».

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção.   Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca, ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 

Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. 
 


AS PESCARIAS DE JOÃO DUARTE E DO VENÂNCIO


Em meados do século XX duas grandes empresas dedicadas à indústria pesqueira encontravam-se intimamente ligadas ao nome da PRAIA AMÉLIA, a de Venâncio Guimarães e a de João Duarte, tendo ambas por sua vez ligadas, respectivamente, à fabricação de conservas de peixe e à fabricação de guanos, que deram a sua grande contribuição para o avanço do Distrito.

João Duarte era, sem dúvida, o mais bem sucedido morador do Bairro da Torre do Tombo, o bairro onde vivia. Foi com 15 anos para Angola (Moçâmedes) e transformou-se num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. A sua pescaria na Praia Amélia, com a gestão familiar, e a participação de todo um conjunto de trabalhadores, brancos, negros e mestiços, gente de terra, gente do mar, mestres contra-mestres, motoristas, pessoal auxiliar (contratados), capataz, etc etc, foi evoluindo, e em 1968 quando faleceu tinha uma fábrica de farinha e óleo de peixe totalmente automatizada, e 3 traineiras de bom porte, que garantiam a matéria prima -  a João de Deus, a Zita Lourdes e a Maria Margarida, e ainda instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, uma ponte, várias casas para o pessoal e  até uma bonita Capela onde aconteceram cerimónias de casamentos de familiares abençoadas pela sua Santa Padroeira - a Nossa Senhora dos Remédios.


 Ao fundo, a ponte da pescaria de João Duarte. Na praia trabalhadores lavando as redes. Foto Salvador


Traineira de João Duarte. Foto da família Duarte


 A fartura do pescado. Pescaria de João Duarte




O tempo das almoçaradas familiares na Praia Amélia


A pescaria de João Duarte situada mais a sul da Praia Amélia, a dar para a zona funda da praia de banhos, junto da ponte, (zona que permitia a atracagem de traineiras e de barcos de certo calado), para além da grande contribuição para o desenvolvimento de Moçâmedes, era a pescaria ideal para onde aos domingos pela manhã, no Verão, se deslocavam familiares e amigos para ali passarem o dia em ameno convívio e confraternização, quer tomando banhos de mar na zona funda mais próxima da ponte, quer na  mais afastada, sem fundão, mas com altas ondas, que se fosse hoje em dia dava para a prática do windsurf.  Outros preferiam a pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, caça submarina, pesca desportiva, etc. Eram encontros que tinham o seu ponto alto à hora do almoço, quase sempre uma caldeirada de peixe feita mesmo ali por baixo do telheiro da pescaria, lado a lado com os tanques de salga do pescado. As famílias carregavam consigo frutas e doces refrigerantes, bebidas, toalhas, guardanapos, louças, copos, talheres, etc. Cozinhavam ali mesmo sobre pedras e carvão, ou utilizando um fogão a petróleo desses que foram vedeta antes do surgimento dos fogões a gás. Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia se faziam em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo, as que ficavam mais à mão, ou da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

A Praia Amélia era a alternativa mais próxima, à Praia das Miragens, no centro da cidade, aquela que oferecia uma maior variedade de diversões, uma vez que para além dos banhos, ali se podia pescar e até fazer  as já citadas almoçaradas em agradável e alegre convívio. Sim, porque a outra praia, a "Praia das Conchas",  de "praia" apenas possuía o nome!

A prática das grandes almoçaradas perdurou forte, pelo menos até meados dos anos 1950, e foi desvanecendo com  o aumento populacional e as novas e diversificadas ofertas  ao lazer das populações nos anos 1960, a década em que tudo mudou. Esta década foi também a do início das "Festas do Mar" e a do "boom" populacional em Angola de que Moçâmedes beneficiou.
O tempo das almoçaradas na Praia Amélia, nos anos 1950. Foto cedida por Olimpia Aquino.


 
Finais da década de 1940, Maria Emília Ramos conduzindo uma motorizada em plena areia da praia, na Praia Amélia. Uma jovem de moto era naquele tempo coisa rara! Ao fundo, à direita, os giraus ou tarimbas para a secagem do peixe, e à esquerda, as instalações de João Duarte. Foto decida por Antonieta Bagarrão.


Esta geração de jovens mulheres nascidas na década de 1930, em Moçâmedes, podemos dizer sem receio de errar, foi aquela que rompeu com o modelo tradicional de suas mães e avós, secularmente reduzidas ao papel único de donas de casa, esposas e mães, com muito actividade quase nula na esfera pública, excepto na área do social ligada à paróquia. Aliás era normal que assim fosse dado o trajectória histórica da mulher portuguesa e a estrutura social num tempo de oferta escassa de trabalho, como foi Angola até 1950.


Foto decida por Antonieta Bagarrão. Em 1949 na Praia Amélia para uma banhoca...



O modelo dos fatos de banho denunciam a época.  Nesta altura as jovens usavam ainda fatos de banho com uma espécie de saia à frente, e bastante subidos no peito. Eram, aliás, as normas do Estado Novo. Para quem desconhece, importa lembrar que em 1941, na sequência da chegada a Portugal de muitos refugiados da Segunda Guerra Mundial que, pouco habituados aos pudores nacionais, aproveitavam as praias da Linha do Estoril para exibir os corpos, foi promulgada legislação com "várias disposições sobre o uso e venda de fatos de banho", instituindo e estabelecendo "o sistema de fiscalização e sanções a aplicar aos transgressores." As razões do Ministério do Interior estavam relacionadas com factos ocorridos durante a última época balnear que passaram a exigir "normas adequadas à salvaguarda da decência e dia valores morais estéticos que os povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam", escrevia-se então.  Assim, trajes balneares de homens e mulheres passaram a obedecer a regras específicas, cabendo aos cabos do mar fiscalizar o seu estrito cumprimento quer em relação a  homens quer a mulheres. É claro que na década de 1960, ou até já mesmo a partir de meados dos anos 1950, já nada era assim. Com o fim da guerra 1939-45, ventos de mudança vindos do exterior penetraram em Portugal e chegaram às colónias de África onde eram mais facilmente acolhidos.  O biquini fez a sua aparição nos anos 1960, como que desafiando uma velha ordem  retrógada, beata e caduca! Diz-se que nas colónias a moda do biquini avançou mais rápida.



 A praia Amélia em dia calmoso

 
 Na Praia Amélia, numa manhã de Carnaval em 1953. Foto do meu álbum.

Na ponte.  Fito cedida por Ricardina Lisboa

Um passeio de bicicleta à Praia Amélia. Atrás as casas dos empregados 
da pescaria de João Duarte. Foto do meu álbum.



A prática desportiva na Praia Amélia: a pesca desportiva e a caça submarina. Os concursos das "Festas do Mar" 


A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva por ocasião das "Festas do mar" e outras que as antecederam, enquanto a ponte era invadida uma multidão se espectadores, gente de ambos os sexos e de várias idades, interessadas na modalidade.


 
 As Festas do Mar e os concursos de pesca desportiva e caça submarina na Praia Amélia. Ponte da pescaria de João Duarte. Do meu álbum.
 
 As Festas do Mar e os concursos de pesca desportiva e caça submarina na Praia Amélia. Ponte da pescaria de João Duarte. Do meu álbum.



A Capela da Praia Amélia 




A determinada altura, por volta dos anos 1950, João Duarte mandou construir na Praia Amélia uma capela, para a qual importou da Metrópole uma imagem da Santa da sua devoção, e onde se tiveram lugar ao longo de 2 décadas cerimónias religiosas, para além de baptizados e de casamentos. Eram geralmente baptizados e casamentos ligados à familia de João Duarte. A capela da Praia Amélia foi o que escapou à voragem das demolições que tiveram lugar há uns anos atrás, e que se desenrolaram num abrir e fechar de olhos...





Ficam estas recordações.


Pesquisa e texto de
MariaNJardim







terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O traço enigmático das gravuras rupestres de Tchitundo-hulo



Foi há cerca de cinquenta anos que o Tchitundo-hulo começou a interessar os cientistas. Em 1952, o geólogo Camarate França iniciou o estudo da estação. Em 1954, o etnólogo alemão Herman Baumann observou as gravuras e pinturas do Tchitundo-hulo Mulume e encontrou o Tchitundo-hulo Mucai.

Já na década de 70, coube ao professor angolano Carlos Ervedosa1 e ao professor Santos Júnior (a quem se deve o registo de novas gravuras no Tchitundo-hulo Mulume, assim como a descoberta da Pedra da Lagoa e da Pedra das Zebras) visitar e efectuar pesquisas nesta estação.
O Tchitundo-hulo Mulume deve ter cerca de duas mil gravuras, quase todas de tipo geométrico. Associações de circunferências e de traços rectilíneos constituem figuras verdadeiramente labirínticas e de interpretação bastante difícil.

Segundo aferiram os dois últimos cientistas, “as gravuras (…) parecem resultar da percussão da superfície da rocha, seguida da fricção dos sulcos abertos, possivelmente segundo um desenho previamente riscado.”

“Não são todas da mesma idade e com facilidade isso se constata. Desde as mais apagadas ou patinadas até às de traço mais recente (…), há uma infinidade de estados intermediários, atestando uma tradição desde longa data perpetuada no Tchitundo-hulo.”
O professor Santos Júnior2 apresenta várias razões para defender a antiguidade destas gravuras, sendo uma delas o seu grande número, o que “deve corresponder a um largo período de utilização daquele monte para a prática de quaisquer cerimónias, nas quais a execução de gravuras no chão de 
pedra fizesse parte integrante do respectivo ritual.”

“É também lícito imaginar que correspondam a um período de certa permanência nas redondezas do povo que tão exuberantemente deixou assinalada a sua presença naquele grande morro.”
“Por isso, é lógico admitir que a antiguidade daquelas gravuras corresponda a um período de condições climáticas menos severas do que as actuais naquela orla do deserto, onde a falta de água é manifesta, por a chuva ser rara e escassa.”
Devido à escassez de água, o Tchitundo-hulo é, presentemente, apenas um abrigo temporário das populações cuvales, que por ele passam em busca de pastagens e água para o seu gado.
Na rota das suas deambulações, o morro acolhe-os por pouco tempo. Por ali erguem o “sambo” (cercado de ramos de espinheira), onde o gado pernoita, assim como os pastores, que se acolhem em pequenas cabanas cónicas, cobertas de bosta de boi, com porta baixa e, por vezes, curto alpendre.
A carta étnica de Angola de José Redinha, editada em 1975, referencia o Tchitundo-hulo como pertencendo à zona de ocupação dos Cuíssis, com os Cuvales a oriente, estendendo-se até aos contrafortes da serra da Chela.


Em relação aos nomes Tchitundo-hulo Mulume e Tchitundo-hulo Mucai, distantes um do outro cerca de mil metros, o primeiro (com muitas gravuras rupestres e um abrigo, ou pala com pinturas no tecto) significará o homem e o outro a mulher.
Entre os muitos outros “inselbergs” que ali se erguem, Camarate França refere-os sob a designação de mãe e filha, não tendo os naturais da região sabido explicar o motivo que os terá levado a dar-lhes estes nomes.
Parece evidente que Tchitundo significa monte ou morro. É na significação de hulo que as opiniões divergem.
Em Março de 1970, Cornelius Prinsloo refere ao professor Santos Júnior que Tchitundo-hulo significaria Monte do Céu, em virtude de se acreditar que as figuras de círculos concêntricos – especialmente as que se encontram raiadas – e que constituem o motivo dominante dos desenhos, representam astros.
O dr. Alberto Machado Cruz , que foi conservador do Museu da Huíla, informa que terá havido no alto do morro um acampamento que se chamava Tchitundo-hulo (Acampamento do Céu).
Por sua vez, o padre Carlos Estermann assinala: “Quanto a hulo, supõe que o seu significado não pode ser concretamente o que lhe tem sido atribuído… Monte Sagrado. Será Tchitundo-n’cola, visto que n’cola ou uncola significam sagrado. Para dizermos Monte do Céu seria Tchitundo-èúlo, visto que èúlo é céu.”
Segundo parecer deste ilustre reverendo, hulo pode significar último, derradeiro, e acrescenta que, por exemplo, ondjila hulo quer dizer caminho último, fim de caminho, ou ainda caminho terminado.”


E conclui o professor Santos Júnior:
“Como o fim do caminho da vida do homem é a morte, fim último, pode, pois, emitir-se a hipótese de ser aquele monte local de especial veneração entre os naturais da região, por ali terem realizado as cerimónias dos ritos de passagem e mesmo práticas rituais em manifestações fúnebres de culto pelos mortos.”

Que gravuras encontraremos ali, nos dias de hoje, em perigo de desaparecerem, vandalizadas impunemente por quem ignora o seu valor?
“…grande número de símbolos astrais, círculos e desenhos abstractos (…), pequeno número de animais de grande porte ou médio. Ausência de figuras antropomórficas (…), sobreposições de gravuras, desde as mais apagadas ou patinadas (que constituem a grande maioria), até às de traço mais vivo, (o que nos leva) a concluir que desde tempos recuados até quase aos nossos dias têm feito gravações no Tchitundo-hulo Mulume.”
“Só vimos seis representações de animais, três antílopes, um  chacal e duas cobras. É possível que haja mais e nos tenham passado despercebidas.”

Fotos: Emídio Canha


in AUSTRAL nº 50, artigo gentilmente cedido pela TAAG - Linhas Aéreas de Angola

  • 1. Arqueologia Angolana de Carlos Ervedosa, ed.Minist. da Esducação, 1980
  • 2. Santos Junior,1974, Ervedosa,C,1974
por Dario Melo
 http://www.buala.org/pt/vou-la-visitar/o-traco-enigmatico-das-gravuras-rupestres-de-tchitundo-hulo

sábado, 23 de dezembro de 2017

A FOCA


 

Foto Salvador
Foto Salvador

Foto Salvador

MOÇÂMEDES. MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: A FOCA


No vasto jardim da Avenida da República, em Moçâmedes, Angola, avenida paralela à Rua da Praia do Bonfim, num local privilegiado da cidade, em frente ao belo e clássico edifício do Banco de Angola, onde ainda no início da década de 1950 existia um romântico Coreto, foi construido um tanque/fonte de água luminosa, onde a determinada altura, entre finais da década de 1950 e início da década de 1960, foi colocada uma FOCA, uma grande FOCA que, vinda do polo sul, influenciada pela corrente fria de Benguela (1), havia chegado à nossa praia...Capturada e levada para o tanque do jardim, a FOCA ali viveu o tempo suficiente para se tonar um atractivo para quem passava, e sobretudo para as crianças, dado que já familiarizada, vinha até elas para receber o alimento que lhe traziam para comer. Mais tarde, e não se sabe porque razão, a foca acabou por ser libertada e levada para o mar, e como persistisse em voltar para terra, foi ali mesmo, junto à praia, entre o edifício da Capitania e a Fortaleza, na presença de toda a gente, incluso de mães com as suas crianças, fria e barbaramente abatida pela autoridade máxima da Capitania do Porto de então, cujo nome todos os moçamedenses conhecem, e não vou aqui citar... Acto vil que indignou muita gente e que se a outros poderia ter passado despercebido, não foi indiferente ao poeta, ser por natureza dotado de fina sensibilidade.

Este acto inspirou o poema que a seguir transcrevemos que ficará para sempre ligado a este acto e à pessoa que o praticou.



A FOCA
Foi morta, a tiros vis, a foca, a grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

 E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora, a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz,  da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!

Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
 Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

(Angelino da Silva Jardim)

domingo, 19 de novembro de 2017

Moçâmedes do antigamente: era Natal...



Já cheirava a Natal!... O Natal estava a chegar e os gourmets da Rua das Hortas sempre a aviar: o Gingubinha; o Brasileiro; o Jaime Cariongo e ainda outros mais que a concorrência era grande e havia que aproveitar.

As lojas de brinquedos, essas então, punham os miúdos a delirar e a sonhar: e era um martírio para os pais arrancá-los das montras dos Armazéns do Minho, do Venâncio Guimarães e do Pires Correia. Mas a mais espectacular de todas era, sem dúvida nenhuma, a montra do Pires Correia.
Era tão apelativa, tão encantatória que alguns miúdos se passavam de todo, sabendo de antemão que nenhum daqueles brinquedos viria a ser seu. Por isso, o Tolentino extravasava as suas raivas metendo pelo buraco das portadas das montras do Pires Correia um fino caniço e com ele jogava o bilhar com os brinquedos, pondo num caos a bonita montra feita com tanto desvelo.

E, então, numa das noites antes do Natal, o velho Pires Correia apanhou o Tolentino em flagrante delito e, furibundo, levantou-o do chão pelos fundilhos dos calções, mas…, milagre de Natal!, fez-se luz... e veio a compaixão. Em vez de dar duas galhetas ao Tolentino, o bom velho Pires Correia fez um trato com o miúdo:

- Eu conheço-te, tu és filho da D. Máxima. Vamos fazer o seguinte: eu dou-te um brinquedo de Natal à tua escolha e tu prometes nunca mais desfazeres a minha montra. Combinado?

E o Tolentino escolheu, então, o maior brinquedo que por lá havia: um carrão dos bombeiros, todo ele feito de madeira, vermelho, vermelhão e com uma dezena de bonitos bonequinhos armados de capacetes também vermelhos...

Depois havia os mucubais que, vindos do Giraul de Cima com os últimos cabritos vivinhos da costa, batiam à porta das casas humildes para vendê-los a preços da uva mijona.

E a avó Catarina perguntava:
- Quanto custa cada cabrito?
- Cinco angolares, Senhora, respondia o mucubal.
- Então, o ano passado era quatro angolares cada um, agora é mais caro 25%? Como é isso?
- E o mucubal volvia, então, com manifesta convicção: “É a inflação, Senhora, é a inflação que não pára”
- Vá lá, contemporizava, contrariada, a avó Catarina, não convencida de todo, instruindo o mucubal: - Dá a volta e leva o cabrito para o quintal.

No quintal, já estava a Maria Torresmo à espera, de facão em riste, para a matança do pobre animal. E mal começava a esquartejar o cabrito, dava logo início a um monólogo bem audível que abria o apetite a quem a ouvia, mesmo aos próprios acamados, que eram muitos nessa altura de transição. E ia fazendo o relato para si, alto e em bom som, do destino a dar ao desgraçado do bicho: -

“estas pernas assadas no forno, com umas batatinhas douradas e arroz de legumes salteados, acompanhados de um fresquinho vinho branco do alentejo; estas mãos, este peito, estas costeletas para a caldeirada, sem poupanças na cebola e no tomate, alho e louro q.b. e com muito gindungo para puxar pelo tintol, que maravilha!...”, dizia a Maria Torresmo, salivando e babando-se já a olhos vistos. E continuava a esquartejar sem dó nem piedade o pobre animal, membro a membro até às partes mais miúdas.

Mas a caldeirada de cabrito destinava-se apenas para o almoço do Natal, pois que para a Consoada era o tradicional bacalhau cozido, com a habitual couve portuguesa cobrindo as batatas e os ovos.
E para o próprio dia de Natal havia sempre uma ou outra família do Bairro da Facada que podia dar-se ao luxo de um almoço com mais requinte, como era, por exemplo, a casa do Tó Lindas.
É que, quanto a isso, o Tó Lindas tinha o seu segredo de Polichinelo bem guardado, supostamente só do seu conhecimento e de alguns poucos amigos.
Na realidade não devia ser bem assim, mas era assim que o Tó Lindas o concebia. Um pouco mais além da velha ponte-cais da Praia das Miragens, a Mãe Natureza tinha caprichosamente plantado no seu fundo arenoso uma vintena de lages, formando autênticos gavetões onde as lagostas tinham fixado residência.

Ninguém sabia ao certo quem tinha sido o seu descobridor, mas a verdade é que os capitães de areia do Bairro da Facada estavam de posse das suas coordenadas.

E era assim que o Tó Lindas nas vésperas de Natal, pelas seis da matina, pegava num saco de rede e nos óculos de caça submarina, vestia uma camisola velha de lã, que as águas em Dezembro ainda eram frias, e, assim munido, lá ia ele para a Praia das Miragens.

E ali chegado, mergulhava na parte norte da velhinha ponte-cais, nadava uns trinta metros para lá do cabeço da ponte e flectia, então, para a Praia do Cano, mas parando logo defronte à Capitania.
Não devia ser difícil configurar as coordenadas do lugar, porque qualquer pescador da Torre do Tombo o fazia diariamente com as suas sacadas ou na pesca à linha, quer fossem algarvios, madeirenses ou quimbares. Mas para os miúdos era obra.

Mas para o Tó Lindas, em particular, era canja; olhava para o Casino e para a grande árvore do quintal do dr Soares Pinto, e já estava; a sul, bastava olhar para o último canhão da Fortaleza de S. Fernando e para a pedreira da Torre do Tombo e… voilà!

Era só mergulhar, ir directo à capoeira das lagostas e escolher três das maiores. Apenas três, que o Tó Lindas não era nada ganancioso.
Quando chegava a casa, era recebido em festa. E havia almoço de Natal com requintes de gente fina; lagosta cozida com maionese. Maravilha!... E a avó Catarina não conseguia reter umas lágrimas que teimosamente lhe corriam pela face roída pelo tempo e pelas agruras da vida.
- Então, e o Capitão do Porto? – perguntava por fim a avó Catarina.

- O quê que tem, avó, o mar é dele?

À tarde, era o cinema do Eurico que passava o filme do Tarzan e, como habitualmente, os miúdos pobres tinham o seu presente com entrada livre no dia de Natal. E lá estavam todos eles na fila de entrada, os capitães de areia do Bairro da Facada, com o Tó Lindas à cabeça.
Começava o filme e quando o Tarzan, numa luta feroz, matava o leão ou nadava mais rápido do que o jacaré, a sala do cinema vinha quase abaixo com tanta claque e algazarra dos miúdos do Bairro da Facada.

Depois do filme terminado, iam todos a correr de alma cheia e coração ao alto, com alguns tostões nas algibeiras, directos para o Quiosque do Fautino para o lanche do Natal:

- Sr. Faustino, dois molhados para cada um.
- O que é isso de molhados, perguntava o Sr. Faustino.
- São panguengues – respondiam os miúdos.
- Falem português, seus palermas.
- Então, o Sr. Faustino não sabe? Molhados ou panguengues são papo-secos só com o molho das bifanas - explicitava o Tó Lindas.
- Não, não temos cá disso, só temos sandes de carne assada na panela – respondia o Sr. Faustino.
- Então o Bar do Sporting tem panguengues e o Sr. Faustino não tem! Como é isso, então?

E lá iam eles, os capitães de areia do Bairro da Facada, cantando e rindo, felizes e contentes, a caminho do Bar do Sporting em demanda dos molhados ou panguengues, que Deus Nosso Senhor assim mesmo os fez como são, por alguma boa razão que não conseguimos enxergar: pobretes… mas alegretes!...

Porque era Natal… e foi em Belém!...


(ass) Arménio Jardim